Visões de fornecedores, indústria, startups e ICTs sobre os desafios e prioridades da impressão 3D no Brasil.
Durante muitos anos, a discussão sobre Manufatura Aditiva no Brasil esteve centrada em máquinas, materiais e parâmetros de processo. Falava-se sobre qual tecnologia era melhor, qual impressora entregava mais desempenho ou qual material representava a próxima grande revolução.
Em 2026, esse debate começa a perder força.
Não porque a tecnologia tenha parado de evoluir (pelo contrário), mas porque o principal gargalo da Manufatura Aditiva no Brasil já não é mais tecnológico. Ele passou a ser organizacional, cultural, de integração industrial e, em muitos casos, de construção de casos de negócio claros.
Essa leitura não vem apenas de percepção individual. Ela emerge de forma consistente, a partir das respostas de profissionais que atuam diariamente no ecossistema brasileiro de Manufatura Aditiva (fornecedores de tecnologia, usuários industriais, prestadores de serviço, startups e Institutos de Ciência e Tecnologia), os quais foram ouvidos(as) para a construção deste artigo.
Como o ecossistema enxerga 2026
Quando questionados sobre como enxergam 2026, a visão predominante aponta para um ano de consolidação, mais do que de crescimento acelerado ou de novas promessas tecnológicas.
Essa consolidação não significa estagnação. Pelo contrário: ela reflete um movimento de amadurecimento, no qual a Manufatura Aditiva deixa de ser explorada como curiosidade tecnológica e passa a ser avaliada com critérios industriais mais rigorosos.
O discurso muda de “o que a tecnologia é capaz de fazer” para “onde ela realmente gera valor”.
Onde a Manufatura Aditiva deve crescer no Brasil
As respostas indicam que a Manufatura Aditiva tende a avançar principalmente em aplicações bem definidas, nas quais seus benefícios são claros e mensuráveis. Entre elas, destacam-se:
- produção de peças finais e componentes funcionais em nichos específicos;
- ferramental, dispositivos, manutenção e reposição;
- aplicações ligadas a setores como energia, óleo & gás, saúde e bens de capital;
- prototipagem avançada, com foco em redução de ciclos de desenvolvimento.
O ponto comum entre essas aplicações não é a tecnologia em si, mas o nível de integração ao processo produtivo. Onde há método, clareza de aplicação e alinhamento organizacional, a Manufatura Aditiva avança.
Onde isso não existe, ela tende a permanecer restrita a pilotos, provas de conceito ou iniciativas isoladas.
A tecnologia evoluiu, mas ela não resolve sozinha
IA aplicada à Manufatura Aditiva, automação de processos, novos materiais e maior integração de software aparecem com frequência como tendências relevantes para 2026. No entanto, as respostas deixam claro que essas tecnologias não operam “no vácuo”.
Elas só entregam valor quando inseridas em fluxos industriais estruturados, com pessoas capacitadas, processos definidos e critérios claros de qualidade e repetibilidade.
A discussão, portanto, deixa de ser sobre qual impressora comprar e passa a ser sobre como integrar a Manufatura Aditiva ao sistema produtivo como um todo.
O gargalo financeiro existe, mas ele não explica tudo
O investimento necessário, especialmente em tecnologias de metal, continua sendo apontado como uma barreira relevante. Nem toda empresa consegue (ou deveria) adquirir uma impressora industrial de alto custo.
No entanto, as respostas mostram que o desafio financeiro raramente está isolado.
A percepção de “custo alto” costuma caminhar junto com:
- dificuldade de estruturar casos de negócio robustos;
- avaliação da Manufatura Aditiva apenas pelo custo direto da peça;
- baixa integração com indicadores como lead time, risco, estoque, flexibilidade e tempo de resposta.
Não por acaso, a maioria dos respondentes considera a Manufatura Aditiva economicamente viável em nichos específicos, e não de forma generalizada.
Isso sugere uma leitura importante:
onde há maturidade organizacional e clareza de aplicação, o investimento acontece; onde não há, a tecnologia sempre parecerá cara demais.
O verdadeiro gargalo: pessoas, processo e cultura
Quando se olha para os principais desafios apontados para 2026, três temas aparecem de forma recorrente:
- qualificação de pessoas, não apenas técnica, mas também gerencial;
- processos industriais, com foco em repetibilidade, qualidade e certificação;
- cultura organizacional, especialmente na confiança da indústria em novas abordagens produtivas.
A Manufatura Aditiva exige uma mudança de mentalidade. Ela não se encaixa perfeitamente nos modelos tradicionais de produção em série (mas vem evoluindo nesse sentido também!), nem pode ser avaliada apenas com as mesmas métricas.
Sem essa mudança cultural, mesmo a melhor tecnologia tende a ficar subutilizada.
Hype vs realidade: o que precisa mudar em 2026
As respostas permitem uma leitura clara sobre o que precisa ser deixado para trás e o que merece mais atenção.
O que está superestimado:
- a ideia de que comprar uma impressora resolve problemas automaticamente;
- expectativas de retorno rápido sem integração aos processos industriais e sem pensar em toda a jornada para execução dos processos da manufatura aditiva;
- foco excessivo na máquina, em detrimento do sistema.
O que está subestimado:
- construção de business cases realistas e sistêmicos;
- modelos híbridos, combinando produção interna, serviços e parcerias;
- iniciativas de capacitação, integração e compartilhamento de boas práticas.
2026 como ponto de virada
Se houver um consenso implícito nas respostas, ele pode ser resumido assim:
2026 pode ser lembrado como o ano em que a Manufatura Aditiva no Brasil deixou de ser apenas uma promessa tecnológica e passou a exigir maturidade industrial.
O avanço do setor dependerá menos de novas máquinas e mais da capacidade das organizações de aprender, integrar, qualificar pessoas e executar melhor.
A tecnologia está pronta. O desafio agora é fazer com que a indústria esteja.
Agradecimentos
Agradeço aos(as) profissionais que contribuíram com suas visões para este levantamento (Andrea Cristina (Laboratório Aberto de Brasília), Daniel Huamani (3D Criar), Humberto Monteiro (CIT SENAI), Juan Oliveira (Ortosíntese), Mário Boccalini Júnior IPT), Rafael Trommer (Inmetro), Renan Massa (Avenir 3D), Vinicius Raufer (Solve do Brasil), Yassine Anajar (Vallourec), entre outros), representando diferentes elos do ecossistema brasileiro de Manufatura Aditiva. Suas respostas foram fundamentais para construir uma leitura realista e madura sobre o que esperar de 2026.

Abraço,
Luan Saldanha.