Spare Parts 3D: transformando a cadeia de fornecimento através da Impressão 3D

   A empresa Spare Parts 3D, desenvolvedora do software DigiPART, foi fundada em 2015 com o objetivo de simplificar a cadeia de fornecimento de peças sobressalentes através do uso da Impressão 3D (Manufatura Aditiva).

   No último mês a empresa francesa esteve presente no Rio Oil & Gas e esta semana Luan Saldanha (do Manufatura Digital) conversou com o Christian Darquier, VP de vendas para Europa e América, sobre a empresa, desafios e perspectivas.

Christian Darquier
Christian Darquier

   Através de um bate papo descontraído e bastante enriquecedor, Christian nos mostrou que a tecnologia desenvolvida pela Spare Parts 3D permite gerar muito valor às empresas e facilitar a adoção da Impressão 3D em suas ações. O foco, segundo ele, é ter uma abordagem ligada fortemente a questão de business com as empresas, mostrando o potencial financeiro que pode gerar esta mudança de mentalidade em relação à Impressão 3D.

1- Como surgiu a Spare Parts 3D e como está sendo esta trajetória.

   A Spare Parts 3D foi criada por 2 engenheiros mecânicos franceses, o Paul Guillaumot e o Paul de Misouard. Eles criaram a empresa quando tinham 27 anos, super jovens e brilhantes. A companhia começou a ganhar forma após a última experiência do Paul como consultor em uma empresa de aviação europeia. Nesta empresa, seu objetivo era preparar a equipe engenharia para adoção da manufatura aditiva na próxima geração de aviões.

   A Spare Parts 3D foi criada originalmente em Singapura e começou a desenvolver um software para ajudar no processo de identificação de peças para Impressão 3D. Em 2018, Paul retornou à França, transferindo também a empresa e mantendo uma filial em Singapura. No final de 2019 e início de 2020 o crescimento e estratégia da companhia foram acelerados, com grande foco no desenvolvimento de software. Como resultado, recrutou um CTO e VPs comerciais para ajudar neste momento de crescimento.

Paul Guillaumot e Paul de Misouard, fundadores da Spare Parts 3D
Paul Guillaumot e Paul de Misouard, fundadores da Spare Parts 3D
2- Sobre o DigiPART: como ele funciona, quais são principais resultados e diferenciais? Ele avalia a peça 3D, 2D, documentos?

   O DigiPART é o produto atual da Spare Parts 3D.

DigiPART
DigiPART Identify, DigiPART Catalog e DigiPART Print

   A primeira etapa é a etapa de dados. Grande parte dos clientes não tem modelo 3D. Desta forma, o DigiPART foi desenvolvido para não precisar inicialmente do modelo CAD para a análise, pois ele trabalha com diversos sistemas de informação que são utilizados pelos clientes.

   Como funciona: nós pegamos dados de onde for (ERP, PLM etc), o software faz reconhecimento semântico da peça e consegue, com este reconhecimento, identificar (sobretudo quando tem descrições extensas de peças) o nome, equipamento, quando tem alguma informação técnica sobre o material, se tiver alguma dimensão o software pega, entre outros. A gente consegue também completar os dados que eventualmente pode faltar. Simplesmente porque como somos baseados em Machine Learning, como o nosso sistema já fez análise de indústria de Óleo e Gás (O&G), é possível reconhecer um impeller e buscar quais sãos especificações funcionais daquela peça.

   Posteriormente, ele pode buscar em uma base de dados informações adicionais (temperatura de trabalho, resistência, etc). Com base nisso estabelecemos o que chamamos de “Blueprint”, que são as especificações funcionais de uma peça. Esta será a base para identificar as soluções de Manufatura Aditiva (MA) correspondentes.

   Muitas vezes, por não ter o CAD da peça (mas com as informações iniciais levantadas) é possível fazer a estimativa de “imprimabilidade” (capacidade de imprimir em 3D) de tal peça. Isso já permite determinar quais são as peças com maior potencial e onde focar a energia, do pessoal de engenharia, para buscar mais informações que vão complementar informações faltantes.

   Sempre é realizada uma dupla análise: econômica e técnica. Então nós pegamos os dados brutos do cliente, fazemos todo filtro a partir de uma estruturação de dados, realizamos a análise e conseguimos distribuir esta análise em uma matriz de “imprimabilidade” x atração comercial (business) daquelas peças.

   Para 150 mil peças analisadas, conseguimos afirmar que 30%, por exemplo, daquela amostra, se mostra viável para Impressão 3D. Com isso, conseguimos realizar um filtro inicial e buscar mais dados para refinar a análise e começar o detalhamento para determinar se aquela peça (um bico do queimador, por exemplo) precisará ser escaneado ou realizada uma engenharia reversa do desenho técnico.

   Com o DigiPART, nós conseguimos tratar grandes dados e ver o que tem potencial para impressão 3D.

3- Com isso consegue ter assertividade para avançar apenas nas peças que tem potencial…

   Exatamente. Tivemos um caso de uma companhia que falou “Não tenho muitos dados de ERP, mas nós temos 7 mil desenhos técnicos” e nós falamos “Tudo bem”. Desenvolvemos também a capacidade de ler grandes quantidades de desenhos técnicos e extrair algumas informações técnicas como dimensão, material, peso, entre outras informações desses desenhos técnicos, para completar ou criar os dados com os quais a gente vai analisar se a peça tem potencial de ser impressa ou não.

DigiPART
DigiPART

   O foco é sair do discurso de engenheiro para engenheiro, convencer o pessoal que é de business para mostrar que a tecnologia pode gerar muito valor. Com isso, conseguimos facilitar a adoção desta tecnologia, que pode permitir reduzir estoque, lead time etc.

 

4- E em relação ao software que desenvolveram vocês têm Machine Learning, Inteligência Artificial…

   Temos Machine Learning, pois temos base de dados com os quais os algoritmos vão aprender. Todo dado adicional melhora a capacidade de analisar. O resto chamamos de algoritmia complexa, no nosso caso não chamamos de Inteligência Artificial. Segundo nosso CTO não tem sentido chamarmos de Inteligência Artificial e sim de Machine Learning e algoritmia complexa.

5- Após a etapa inicial da identificação das peças potenciais, é necessário avançar para modelagem 3D das peças, para criar a Warehouse Digital. Vocês que fazem a modelagem 3D?

   Não, nós temos parceiro(s). O que estamos começando a fazer agora é mirando na nossa visão de automatização do processo de identificação. Nós temos um programa de R&D (Research and Development) que é financiado pelo Ministério da Defesa da França, o qual é voltado à reconstrução automática de modelo 3D, com base na leitura de desenhos técnicos 2D. A visão é que em breve vamos avaliar os dados, reconstruir modelo 3D, validar “imprimabilidade” e mandar para impressão.

6- Em relação a eventos: vocês participaram recentemente do Rio Oil and Gas. Como foi esta experiência e os resultados?

   No tempo que passei no Brasil, no mês passado, houve muitas discussões com empresas do Brasil sendo a principal sobre o problema de infraestrutura para impressão de peças metálicas.

   Como a SpareParts 3D trabalha no processo de identificação de peças, com o software que permite fazer identificação de centenas de milhares de peças, temos um grande desafio, porque todo business case que fazemos para empresas do Brasil, a peça tem que ser fabricada nos EUA ou Europa e acaba não fechando o business case.

   Com isto, tivemos discussão com vários atores no Brasil como o IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás) para tentar trazer uma noção do mercado brasileiro para impressão 3D e mostrar a capacidade e do grande potencial que o Brasil tem para investir nas mais diversas tecnologias de impressão 3D de metal, com os mais diversos materiais.

   Uma proposta é: baseado nas análises da Spare Parts 3D de uma grande quantidade de peças (diversos atores do setor de Óleo e Gás, por exemplo), é possível avaliar um universo de peças e poder estabelecer, através de dados concretos e não apenas em estatística, este potencial, com o intuito de mostrar o quão é importante ter infraestrutura para impressão 3D de metal, fomentando assim o investimento de empresas para estas tecnologias. Fizemos isso em Omã (Oriente Médio) trabalhando para a companhia nacional de petróleo, analisando 150 mil peças desta companhia nacional. Mostramos as tecnologias que vão ser necessárias no país, para atrair investimento e financiar desenvolvimento/capacidade de produção. Isto é o que gostaríamos de fazer também no Brasil.

   Muitas empresas com as quais conversamos (Shell, Braskem etc) querem imprimir, mas entramos sempre no problema do ovo e da galinha: uma empresa vai investir 800 mil dólares em uma infraestrutura de impressão 3D de metal para prestar serviço e inicialmente imprimir 1 ou 2 peças no ano ou esperar aumentar a demanda para investir?

   Para a fabricação de peças em polímero esse problema é um pouco menor, mas talvez porque causem menos dor que tema de impressão 3D de metal.

7- Estão participando também de outros eventos (ADIPEC em Abu Dhabi recentemente e FormNext na próxima semana). O retorno dos eventos presenciais é importante para vocês?

   Foram todos eventos superlegais para a Spare Parts 3D. A indústria de O&G faz parte das indústrias que estão amadurecendo no processo de adoção da Manufatura Aditiva. Estes congressos, feiras e eventos em geral são importantes. Super útil participar e apresentar nossos cases e nossa visão. Recentemente teve uma conferência técnica que Paul apresentou em Abu Dhabi.

   Na Formnext terá uma conferência com a Braskem e outra com a delegação francesa da Manufatura Aditiva. Todos os atores franceses vão estar reunidos no Formnext para falar do know how da França na Manufatura Aditiva.

8- Aqui no Brasil vocês já apresentaram um case bem legal com a Ocyan. Vocês também têm ações com a SAIPEM, Braskem, entre outras empresas. O setor de O&G é o principal para vocês ou vocês atendem outros setores também?

   A gente começou com setor de mineração na França, executando um piloto com eles. Além disso, temos um piloto com a Marinha nacional.

   A nossa vertical mais avançada é o setor de energia, mas além do O&G, temos também ações com energias renováveis. A natureza dos ativos industriais de energias renováveis é mais simples que O&G, mas há oportunidades.

   A petroquímica, como a Braskem, é também importante e é um cliente histórico. Setor de veículos industriais e agrícolas também são bastante importantes. Por exemplo, para setor de veículos que deve carregar peças de reposição durante tantos anos depois do ciclo de produção daquele veículo, a MA é super adaptada a este tipo de problemática.

9- Como vocês enxergam a relação da Manufatura Aditiva com sustentabilidade, principalmente esta semana, que todas as atenções estão voltadas a COP27 (Conferência da ONU sobre Mudança do Clima)?

  O nosso moto é usar DigiPART para simplificar e descarbonizar a cadeia de suprimento de peças de reposição. Então, o nosso objetivo é fazer com que atores industriais produzam menos peças de reposição, menos material, “relocalizem” a produção (para peça chegar onde ser necessária).

   Praticamente o que estamos começando a olhar é como integrar os cálculos de redução de pegada de carbono no processo de análise e identificação de peças para impressão 3D. O princípio do motor de cálculo é bastante complicado e complexo, mas tem iniciativas de R&D que estamos vendo para poder integrar modulo de cálculo sobre a pegada de CO2.

10- Como vocês veem o crescimento e futuro da Manufatura Aditiva nos próximos anos, relacionado com estratégia da Spare Parts 3D e uma mensagem para o público da Manufatura Aditiva aqui no Brasil.

   O Brasil é um país enorme, com potencial gigantesco e com uma situação em que a MA tem toda sua lógica. É um país onde o desenvolvimento nacional tem predominância. Isso é um contexto super favorável para desenvolvimento dessa tecnologia e capacidade de produção. O Brasil tem mercado e tamanho com as condições econômicas para poder desenvolver e fazer com que seja talvez um dos países com maior uso desta tecnologia (impressão 3D). A Índia é outro país assim e eles estão correndo em relação a impressão 3D.

   O Brasil, nas Américas, tem esse enorme potencial. A primeira etapa chave para poder fazer isso é que os engenheiros e pessoal de business enxerguem o mesmo valor. A segunda etapa é tentar. O risco é reduzido. A Spare Parts 3D está aqui para baixar o nível de risco da MA, pois somos capazes de dar uma visão de potencial do uso da Impressão 3D para as indústrias.

   Ou seja: tem um super potencial no Brasil, com indústrias que tem nível de maturidade alto em relação a MA. Como já falamos, um problema é a capacidade de produção de peças metálicas por impressão 3D. Isso é claramente uma coisa que precisa ser discutida e encaminhada entre os principais atores. Cada indústria tem que olhar essa tecnologia, sabendo que é uma tecnologia que gera valor, não é tecnologia de ficção cientifica, é real, que funciona, mas que requer um mínimo encaminhamento interno das companhias, seja no processo de engenharia, no processo de compra, adoção, qualificação etc. Mas, gera valor.

   O principal foco é falar que a tecnologia de impressão 3D é uma tecnologia que pode gerar muito valor para uma companhia industrial.

 

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Luan Saldanha

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